Provérbios Repenteados

Emílio Remelhe + José António Gomes

Um livro que repenteia provérbios a pente fino até lhes descobrir a careca.

Embora envelheçam, os provérbios não gostam de envelhecer. nem gostam de mudar de roupa ou de se despentear. Mas também não gostam de ficar quietos querem estar sempre à mão de quem pretenda dar-lhes lustro. Isto numa conversa, numa discussão, num fiozinho de convencimento, para encher o ouvido de quem escuta e não só.

E também gosta, os provérbios, de se multiplicar, traduzindo por vezes ideias parecidas ou ideias que uma à outra se completam. Por exemplo: «Roma e Pavia não se fizeram num dia» e «Quem espera sempre alcança». (Em parte, apetece-me já já despentear este: «Quem espera sempre dança», ou melhor, sempre vai dançando, enquanto espera, o que já é bem bom…). E também gostam, os tais senhores provérbios, de dizer o contrário uns dos outros (embora preferissem que não se desse conta disso). Querem ver? Aí fica um exemplo: «Quem espera sempre alcança» e «Quem espera desespera».

Do alto da sua mal disfarçada altivez – própria de quem é pequenino, uma espécie de poema pequenino – gostam ainda os provérbios de enunciar verdadinhas que não são para discutir (isso queriam eles…). Mas – já o disse -há sempre um qualquer provérbio à espreita, para contrariar a verdadinha formulada pelo companheiro. Azar deles!

Por tudo isto, apetece despentear estes senhores, que a brilhantina dos séculos foi penteando, penteando. É o que faz a senhora autora deste livro: converte o provérbio em mote (que raio é isto?) e… glosa, glosa, goza. Dá uma cotoveladazinha simpática na «verdade» de um e estica a «verdade» de outro. Puxa-lhes pelas barbas até mais não poder. Escorrega pela barba de um abaixo, ou então trepa-lhe até à cabeça e põe-se a limpar os pezinhos delicados no cabelo-tapete. Outras vezes, pendura-se numa rima de provérbio e assenta o pezinho noutra rima sua. E também fala da sua e da nossa vida, a propósito das vidas de que este ou aquele provérbio gostam de falar…

Eu cá desconfio que a senhora autora do que gosta é de brincar. E, como as palavras não se fizeram apenas para escrever coisas sisudas, mas também para com elas jogar, ela, a senhora autora, joga, joga, joga o jogo dos provérbios, até serem horas de se ir deitar. (E imagino que até adormece a sonhar com estes empertigados senhores, tão penteadinhos). Será que esta autora é uma menina? Uma menina grande como eu? E o ilustrador? Não acham que também tem olhos de menino?

José António Gomes, apresentação

16×16 cm / capa dura / 56 páginas

Preço: 10€

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