Acidentes

Maria Mendes + Gémeo Luís

Um livro que nada tem de acidental.

Golpes de Memória. Essência e acidente: ela, fiel depositária de quase nada; ele, infiel proprietário de quase tudo e mais alguma coisa. Na metafísica, opõem-se, partilhando os bens. Na poesia também. Ou não. Ou outra coisa ainda. Seja: das hipóteses da mente e das experiências do corpo face à existência se conclui que o essencial é o acidente. Même. Sobre ele incidem estes fragmentos. Neles lemos, entre linhas, o contínuo acidental que se escava por palavras na procura da essência. Na consciência de não poder senão procura-la

Maria Mendes vive sazonalmente entre Amesterdão e Caminha. Um gráfico emotivo entre os Países Baixos e o Alto Minho. a autora persegue-se com palavras na consciência de que são elas próprias o objeto da perseguição. Escreve, desde há muito, em viagem. Não me refiro à caneta sob trepidação, mas à viagem-vertigem na quietude da casa dividida, habitável sob licença com aditamentos:

a) «Tal como tu decidi partir, fugir, abandonando o corpo à tragédia diária» [As casas dos Outros, 1988].

b) «Por vezes, fazia de propósito para não dormir. Queria sonhar de olhos abertos, agarrar-se às circunstâncias dos momentos. Tentava a vida procurando um fio que a levasse ao infinito das coisas» [O Soldadinho, 2001].

c) «A nossa história é igual à dos outros, na nossa história os fantasmas deslizam freneticamente, sem precauções» [Rigor Mortis, 1983].

O que bastou a este livro foi a possibilidade de o ser (Borges indiscutível). Os desenhos de Gémeo Luís são mais conhecidos no universo do álbum ilustrado, mas têm surgido (e assim começaram a aparecer) em diferentes contextos. Ainda bem que as ilustrações para a infância nada têm de infantil. E ainda bem que podemos soletrar este encontro entre os autores: Maria com M de Memória-lâmina, Luís com L de Lâmina-memória.

16×16 cm / capa mole / 24 páginas

Preço: 8€

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